Pois não é que, ao final de um longo dia que incluiu um passeio agradabilíssimo no Bois de Bologne, em Paris, meu pai vira pra mim e diz:
- Eu não queria assustar você, mas não estou enxergando direito desde cedo... Estou vendo umas manchas, me sentindo estranho.
Pego o telefone, ligo para o seguro. Num Inglês também estranho, eles me mandam a um hospital bem perto do hotel. Fomos a pé. Chegando lá, somos informados de que não tem oftalmologista de plantão. Assim, somos enviados a um outro hospital, um pouco mais longe, mas nem tanto. Apenas a algumas estações de metrô. Quem conhece, sabe que o metrô de Paris é excelente em termos de cobertura.
Era quase meia-noite. Chegando lá:
- Nous avons besoin de voir un ophtalmologiste.
Estando certa ou não, o carinha da recepção me entendeu e indicou o caminho. Entrando na ala da oftalmologia, meu pai foi identificado e mostrou o passaporte. Quando foi mostrar o seguro saúde que comprou antes de viajar, a moça que nos atendeu disse que não precisava. Preenchemos uma ficha, em que tivemos que fornecer nosso endereço.
Passaram-se uns 20 minutos e ele foi chamado A pronúncia de "Monsieur Da Silva" é impagável. Entrei com ele, pois decidimos que sobre o assunto não dava para falar em Francês. Seria necessário o Inglês. A médica era novinha, usava uma camiseta, calça jeans e um All Star por baixo do jaleco.Conversei com ela sobre os sintomas e ela fez os exames. Mais exames até do que oftalmologia faz normalmente aqui no Brasil.
Depois, ela me falou sobre sua conclusão e que poderíamos voltar ao Brasil normalmente (o voo era no dia seguinte) para iniciarmos o tratamento com o nosso médico mesmo. Ficamos aliviados, pois pensávamos no pior. Longe de casa, a tendência é sempre pensar no pior.
Meses depois, chega aqui em casa a conta: 42 euros pela consulta. Ligamos para o seguro, perguntando se eles não iam pagar. Eles disseram que o procedimento demora um pouco, mas que iriam. Mais umas semanas se passam e chega um aviso de débito, dando um prazo para pagar a dívida, sob pena de submissão a uma cobrança judicial. Meu pai liga novamente para o seguro e eles dizem a mesma coisa, isto é, que iriam pagar, mas sem apontar quando realizariam a façanha.
Entretanto, não querendo estar em débito com o governo de ninguém, meu pai providenciou o pagamento. Não foi muito fácil mas, indo ao Banco do Brasil e ao Consulado da França, perguntando aqui e ali, foi possível. Mas isso é tema de utilidade pública para outro post.
Semanas mais tarde, somos surpreendidos com um aviso de reembolso. O Governo da França detectou que a consulta havia sido paga duas vezes, e estava reembolsando meu pai. O seguro e ele haviam realizado o pagamento ao mesmo tempo. E o dinheiro voltou à conta bancária, de onde não deveria ter saído.
A princípio, ficamos espantados com tamanha organização e controle. Afinal, quando viajamos a Europa ou EUA, a primeira coisa que percebemos é que tudo costuma funcionar como um relógio na casa dos outros e que não há problemas, sendo os imprevistos resolvidos imediatamente. Parece que a segurança reina absoluta. É evidente que não deve ser tudo perfeito, mas não conseguimos imaginar que algo parecido com o que acabei de narrar aconteceria em terras tupiniquins, por exemplo. Não sei se é por causa da minha profissão (advogados existem também porque os caloteiros estão à solta e lido com isso todos os dias) ou se é a insegurança normal do cidadão brasileiro.
O que interessa é que deu tudo certo!





2 comentários:
Interessante, uma cronica?
Acho que o problema do Brasil é a desorganização dos brasileiros XD
Sem comentários... Se fosse aqui, a restituição demoraria séculos e, se ocorresse, seria só na justiça.
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